Nenhum dos quatro aplicativos de poker operando no Brasil em 2026 está sob a Lei 14.790. Isso significa que o rake que você paga não passa pela alíquota de 12% sobre GGR da SPA, e o prêmio que você saca não é tributado a 15% flat na fonte — é tributado a até 27,5% via carnê-leão mensal, pago por você, com multa de 0,33% ao dia se atrasar. A mesa auditou PokerStars BR, GGPoker, Suprema Poker e H2 Club sob três eixos: rake efetivo em NL25 6-max, estrutura de field em MTT de baixo buy-in, e fricção real de Pix na entrada e saída. O que segue são os números.

Metodologia: o que foi medido, quando e com quais ressalvas

O escopo é estreito de propósito. Três eixos, quatro operadores, uma janela de observação — segunda quinzena de junho de 2026, horário de pico do fuso brasileiro (20h às 00h BRT). Rake efetivo foi apurado a partir das tabelas públicas de cada sala aplicadas ao spot NL25 6-max, pote médio calculado em big blinds. Field de MTT foi capturado em torneios recorrentes de buy-in equivalente a R$ 25–R$ 55 no lobby de cada app, três dias úteis e um domingo. Fricção de Pix foi cronometrada em depósitos de R$ 100 e saques de R$ 500 a partir de contas verificadas.

Não é um estudo controlado. Não temos acesso a history files do lado do operador. Rake real por mão varia conforme frequência de flop, showdown e pote uncapped — trabalhamos com médias declaradas. Field de MTT flutua semana a semana, e um domingo não faz temporada. Todos os saques dependem da rota bancária que o app usa por baixo do Pix — nem sempre o Pix é direto, o que muda o tempo. A ressalva vale para tudo o que vem a seguir.

Achado #1: PokerStars BR — o único app com licença local e o custo disso no rake

O PokerStars opera no Brasil sob domínio próprio (pokerstars.com.br) e é o único dos quatro que dedica infraestrutura de conformidade específica ao mercado nacional. A leitura óbvia é que isso deveria significar rake mais baixo, porque a sala não precisa embutir custo de intermediação de agente. A leitura menos óbvia — e a que a mesa verifica — é que o custo de operar sob escrutínio brasileiro entra na tabela por outra via.

O rake NL25 6-max no Stars segue o esquema de 5% sobre o pote, cap de 1 BB, com contribuição weighted apenas para quem viu flop. Traduzido: em um pote de 10 BB, o rake é 0,50 BB. Em um pote de 20 BB, ainda é 1 BB — o cap trava. Em BB/100, um winrate teórico de 5 BB/100 em NL25 significa que o jogador breakeven precisa gerar aproximadamente 8–10 BB/100 de rake pago para o operador antes do rakeback, o que a plataforma retorna via Stars Rewards em uma faixa histórica de 15% a 30% do rake gerado. O número líquido não é bonito para reg.

O field é o argumento a favor. O Stars mantém a maior concentração de jogadores recreativos brasileiros em horário de pico, e o desvio de skill médio entre reg e fish é o mais amplo dos quatro apps que auditamos. Rake alto num field mole vale mais do que rake baixo num field duro. Essa é a matemática que sustenta a posição do Stars aqui — não a promessa de app.

Pix funciona. Depósito instantâneo, saque médio observado abaixo de 2 horas para valores até R$ 5.000. É o benchmark contra o qual os outros três são medidos.

Achado #2: GGPoker — field global, rake em BB/100 e o problema do Pix indireto

O GGPoker opera pelo domínio internacional (ggpoker.com) e não tem estrutura de licenciamento local no Brasil. O jogador brasileiro entra no pool global, o que muda a natureza do jogo. Em NL25 6-max no GG, o field mistura reg asiático, europeu e latino-americano — a distribuição de skill é menos previsível que no Stars, e a variância percebida por reg brasileiro é maior nas primeiras 30k mãos. Regs que migraram do Stars pro GG e voltaram citam o mesmo motivo: o field parece mais mole nos primeiros dias e mais duro depois.

O rake no GG usa modelo weighted contributed com cap escalonado e componente de fee em torneios de estrutura híbrida. Em NL25, o cap de 1 BB é semelhante ao Stars, mas o rakeback via Fish Buffet gira em degraus que dependem do volume mensal — um jogador de 20k mãos/mês fica tipicamente na faixa de 20% a 40% de retorno efetivo, calculado sobre uma métrica proprietária que não coincide 1:1 com rake pago. O detalhe importa: dois jogadores com o mesmo rake pago podem receber retornos diferentes por causa do Fish Buffet random reward.

Pix no GG é o ponto de fricção. A entrada e a saída passam por processadores intermediários que convertem BRL em USD e de volta, e o tempo médio de saque observado ficou entre 6 e 24 horas para valores até R$ 5.000 — dependendo da rota. Não é o Pix direto que o Stars entrega. É um Pix que funciona, mas com camada extra.

O argumento a favor do GG é o field global de MTT: torneios com garantia em USD e overlay recorrente em horários fora do pico brasileiro. Para quem joga MTT como atividade principal, isso é decisivo. Para cash game, o cálculo é outro.

Achado #3: Suprema Poker e H2 Club — o eixo do poker doméstico brasileiro em 2026

Suprema e H2 Club ocupam uma faixa que nem Stars nem GG cobrem: o poker brasileiro rodando em app mobile-first, com estrutura de clube, agente para depósito e saque, e field composto majoritariamente por jogadores nacionais. A mesa trata os dois em conjunto porque a lógica operacional é parecida — muda o clube, muda o agente, muda a liquidez, mas o modelo é o mesmo.

Rake em NL25 6-max nesses apps é tabelado por clube. A média observada nos clubes de maior liquidez ficou entre 4% e 5,5% do pote com cap variável, e a política de rakeback é definida pelo agente — não pela plataforma. Isso significa que dois jogadores no mesmo app, jogando na mesma mesa, podem ter retornos efetivos radicalmente diferentes de acordo com o clube ao qual estão vinculados. Rakeback declarado por agente varia de 20% a 60%, com termos que a plataforma não audita centralmente.

O field noturno é maior do que a maioria dos jogadores internacionais imagina. Em terça-feira do horário auditado, o Suprema apresentou mais mesas de NL25 6-max ativas no pico do que o GG apresentou para o mesmo pool brasileiro — uma consequência direta do mobile-first e do UX pensado para o jogador local. O trade-off aparece na estrutura: instabilidade regulatória. Como o modelo depende de clube e agente, a exposição do jogador a colapso de clube (agente sumiu, saldo travou) é um risco não zerado. A mesa recomenda saques semanais como disciplina básica em qualquer clube desses apps.

Pix é a via padrão de entrada e saída. O tempo depende do agente: os melhores operam em minutos, os medianos em horas, os ruins em dias. Auditar o agente antes de depositar valor material é regra, não sugestão.

Achado #4: O buraco fiscal que nenhum app te avisa — carnê-leão a 27,5%, não os 15% da Lei 14.790

Este é o achado que muda a conta líquida de todos os três anteriores. Poker no Brasil, em 2026, não está sob a Lei 14.790. A lei que regulamentou apostas de quota fixa a partir de janeiro de 2025 cobra 12% de GGR do operador e aplica 15% flat sobre o prêmio líquido do jogador — retido na fonte, sem o jogador precisar declarar mensalmente. Poker é tratado como jogo de habilidade e fica fora desse regime. A consequência não é isenção — é o oposto.

Os ganhos de poker são renda tributável e entram no carnê-leão, com alíquota progressiva que chega a 27,5% no topo da tabela. O jogador se autodeclara, apura o resultado mensalmente e recolhe o DARF até o último dia útil do mês seguinte. Atrasou? Multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, mais juros pela Selic acumulada.

A conta prática. Um jogador que retirou R$ 10.000 líquidos de PokerStars, GGPoker, Suprema ou H2 num mês em que ficou na alíquota marginal máxima paga R$ 2.750 de IR — não R$ 1.500. Se atrasa o DARF em 60 dias, adiciona R$ 550 de multa (o teto de 20% bate rápido) e juros Selic proporcionais em cima do principal.

Nenhum dos quatro apps auditados retém imposto na fonte. Nenhum deles envia informe consolidado à Receita. Nenhum deles avisa o jogador sobre o carnê-leão no fluxo de saque. É responsabilidade individual — e a Receita já cruza movimentação Pix acima de R$ 5.000 mensais com declaração de imposto de renda desde 2023. A janela de invisibilidade fechou.

O contexto regulatório continua em movimento. A Lei 14.790 é objeto das ADIs 7721 (CNC, relator Min. Luiz Fux) e 7723 no STF, e a Corte não derrubou a lei — determinou ajustes operacionais, incluindo a proibição de contas de aposta para beneficiários de Bolsa Família e BPC. Se em algum momento poker for reclassificado sob o regime da SPA, a conta do jogador melhora drasticamente. Enquanto isso não acontece, é 27,5% no topo.

CritérioPokerStars BRGGPokerSuprema / H2
Licenciamento localSim (domínio .com.br)Não (pool global)Não (modelo clube/agente)
Rake NL25 6-max5%, cap 1 BB5%, cap 1 BB, weighted4–5,5%, cap variável por clube
Rakeback efetivo15–30% via Stars Rewards20–40% via Fish Buffet20–60% por agente
Tempo saque Pix< 2h (direto)6–24h (intermediado)Minutos a dias (depende de agente)
Composição de fieldRecreativo BR dominanteGlobal mistoRecreativo BR dominante
Risco operacionalBaixoBaixoMédio-alto (colapso de clube)

O que esta auditoria NÃO prova

Não provamos que qualquer um desses apps seja o melhor para o seu perfil. A escolha entre Stars, GG, Suprema e H2 depende do formato que você joga (cash vs MTT), do volume mensal, da tolerância a risco operacional e da sua exposição à alíquota marginal do IR. Um MTT grinder que joga 40 torneios/semana tem um cálculo diferente do reg de cash que fecha 25k mãos/mês em NL25. Uma tabela não decide isso.

Também não avaliamos o software em si — estabilidade de cliente, latência do servidor, qualidade do HUD, integração com tracker. São variáveis que importam e que a mesa não mediu neste ciclo. E não abordamos poker ao vivo — o BSOP e side events ficaram fora do escopo por serem outro produto, com outra fiscalidade e outra dinâmica de field. Cada um desses é uma investigação separada.

Fica também a ressalva regulatória. Se o STF, em julgamento das ADIs 7721 e 7723, reclassificar poker sob o guarda-chuva da Lei 14.790 ou se o Congresso legislar especificamente sobre poker de habilidade, os números fiscais deste artigo mudam no dia seguinte. O que vale hoje é o que descrevemos. Verifique a data de leitura.

FAQ

Qual app tem o menor rake efetivo para NL25 6-max no Brasil em 2026?

Depende do rakeback líquido, não do rake bruto. PokerStars BR e GGPoker praticam 5% com cap de 1 BB em NL25, mas o retorno via Stars Rewards fica entre 15% e 30%, enquanto o Fish Buffet do GG chega a 40% em volumes altos. Suprema e H2 variam por clube — o rakeback declarado pode ir de 20% a 60%. O rake bruto mais baixo pode virar rake líquido mais alto se o rakeback for menor. Meça sempre em BB/100 líquido, não em porcentagem de tabela.

O saque via Pix é instantâneo em todos os apps de poker?

Não. Apenas o PokerStars BR entrega Pix direto, com saque médio abaixo de 2 horas para valores até R$ 5.000. O GGPoker roteia por processador intermediário e o tempo observado ficou entre 6 e 24 horas. Suprema e H2 Club dependem do agente do clube — os melhores operam em minutos, os medianos em horas, os piores em dias. Para valores materiais, teste com um saque pequeno antes de depositar volume maior no clube ou plataforma.

Preciso pagar imposto sobre o que ganho no poker online?

Sim. Poker não está sob a Lei 14.790, que tributa apostas de quota fixa a 15% flat retido na fonte. Ganhos líquidos de poker entram no carnê-leão como rendimento tributável, com alíquota progressiva que chega a 27,5% no topo. Você se autodeclara mensalmente e recolhe o DARF até o último dia útil do mês seguinte. Atraso gera multa de 0,33% ao dia, capada em 20%, mais juros pela Selic. Nenhum app faz retenção na fonte.

Suprema Poker e H2 Club são seguros para depositar valores altos?

O modelo de clube com agente adiciona uma camada de risco operacional que Stars e GG não têm. Auditar o agente antes é regra: quanto tempo opera, quantos clubes cobre, qual o volume declarado, como é a política de saque em situação de crise. Disciplina básica é sacar semanalmente e nunca manter em clube saldo maior do que a bankroll operacional exige. O field brasileiro nesses apps é grande e o rakeback pode ser competitivo — o custo é gerenciar o risco de contraparte.

Vale a pena jogar no GGPoker se sou brasileiro?

Vale se seu volume principal é MTT com garantia em USD e você aceita a fricção do Pix intermediado no saque. O field global do GG oferece overlay recorrente em horários fora do pico brasileiro e diversidade de skill que o pool doméstico não replica. Para cash game NL25 puro, o argumento é mais fraco: field mais duro nas primeiras 30k mãos, saque mais lento, e nenhuma vantagem de rake sobre o Stars BR. A escolha depende do formato dominante do seu volume.

O que muda se o STF derrubar ou reformar a Lei 14.790?

Nada muda diretamente para poker no curto prazo. As ADIs 7721 e 7723 miram o regime de apostas de quota fixa, que já exclui poker do escopo. A Corte não derrubou a lei — determinou ajustes operacionais, como a proibição de contas para beneficiários de Bolsa Família e BPC. Uma reforma que reclassificasse poker sob o regime da SPA reduziria o imposto ao patamar de 15% flat retido na fonte, mas essa hipótese ainda não está em debate legislativo formal. Enquanto isso, carnê-leão a 27,5%.